Há muito tempo atrás, eu assisti um filme sensacional, que contava a história da última sessão de um cinema.
Era um filme italiano, carregado de boas doses de humor e drama, dirigido por Ettore Scolla.
Infelizmente, não o achei mais em DVD nem em VHS. Mas hoje, procurando algo na internet, eis que surge este artigo que vale a pena ser lido, para se ter uma idéia da dimensão de encanto desse filme:
Artigo de Aramis Millarch originalmente publicado em 20 de janeiro de 1990
Se o cinema é a indústria dos sonhos iluminados projetados na tela branca, “Splendor” é mais do que um filme: é o próprio sonho.
Em torno deste filme não deveria haver críticas, ou releases: ou no máximo um poema tão profundo quanto aquele que Carlos Drummond de Andrade dedicou a Carlitos.
“Splendor” é magia do início ao fim. Um filme para quem ama o cinema, sua simbologia, seu folclore.
Em tudo a simplicidade: a história de um cinema – o Splendor, de uma pequena cidade da Itália, inaugurado nos anos 30, em plena ascensão do fascismo. Jordan (Marcelo Mastroianni), seu proprietário, filho de um caixeiro-viajante das imagens que, no início do século, levou a usina dos sonhos em projeções de cidade em cidade.
Luigi (Massimo Troisi), o projetista que vive e envelhece com o cinema. A francesa Chantal Duvivier (Marina Vlady), que chegou à pequena cidade como dançarina, apaixonou-se pelo então jovem Jordan e ficou ao seu lado, como bilheteira e indicadora. Há Cocomero, crítico de cinema (Ferruccio Castronuovo), Giovanna – a irmã de Jordan (Benigna Luchetti), o vilão Don Arno (Vernon Dobtcheff) – que a proporção que cinema entra em decadência, tenta, de todas as formas, adquirí-lo para construir um edifício comercial.
O programa de ir ao cinema nas sessões dominicais. O escurinho para os namorados. Os filmes tamanho-família. As grandes emoções.
Assim, é empatia, emoção e sensibilidade que se vê nas imagens deste filme que o perfeccionista Ettore Scolla realizou em 1988 e que conquistou Cannes, num festival em que concorria também outro filme sobre o mesmo tema – “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore, – que acabou sendo premiado pelo júri e que, em 26 de dezembro último, valeu ao seu principal intérprete, Philip Noiret, o troféu Felix – o Oscar do cinema europeu – como melhor ator
Splendor, em distribuição da Warner, teve sua primeira exibição pública durante o VI Festival Internacional de Cinema, Vídeo e Televisão, em Fortaleza, num espaço dos mais apropriados – o cine São Luiz. Uma platéia emocionada que chegou às lágrimas vendo este filme emoção, todo empatia.
Assim como Peter Bojdanovich em “A Última Sessão de Cinema” – numa crônica maravilhosa da relação de personagens de uma pequena cidade do Texas e o cinema da cidade em seus derradeiros dias, e que Woody Allen colocou com tanta ternura em sua obra-prima “A Rosa Púrpura do Cairo” (1985), com a ingênua Cecile indo tanto ao cinema que um dia o galã de uma aventura sai da tela – também “Splendor” – e por cento, “Cinema Paradiso” – trazem esta relação de passado, sonho, fantasia. Não esquecendo também o cine Royal – no qual a pianista Celest Beaumont (Monique Sapziani) tem em “Doces Sonhos do Passado” (Les Portes Toumantes, 88, de F. Mankiewicz) os seus maravilhosos dias dourados de sonhos e ilusões.
A magia Splendor – é simples, eterno. Narrado em flash-back, conta a história do cinema de Jordan – de seus dias de glória, casas lotadas, ao melancólico final – esvaziado pela concorrência da televisão e do vídeo – e só mesmo na pornografia é atração para um público diverso daquele chic, requintado e de bom gosto que o freqüentava em seus dias de casas lotadas.
Junto com Fellini, Ettore Scolla é o grande poeta do cinema italiano. Como diretor de “A Estrada”, Scolla também faz desenhos das cenas que leva à tela – e algumas delas, com exclusividade ilustraram este texto. “Splendor” é um filme que poderia ser assinado por Fellini: a mesma emoção, a mesma sensibilidade de suas múltiplas obras-primas estão aqui – nesta crônica de um cinema do interior, que pela empatia é universal.
As últimas sessões de cinema repetem-se melancolicamente em dezenas de países. O Concine não tem uma estatística segura de quantos cinemas fecharam no Brasil, nos últimos 20 anos, mas, seguramente, foram centenas. Os vídeos, em seu aparente conforto, substituem (substituem?) a informação dos cinemas – mas não têm a mesma emoção.
Cronica originalmente publicada no Tablóide Digital
Eu concordo com este artigo. “Splendor” é indispensável para quem ama esta arte! Me fez lembrar de grandes cinemas que fecharam aqui em São Paulo, que hoje viraram igrejas, prédios comerciais, ou mesmo estão abandonados (como o fantástico Cine Comodoro, o primeiro com tela ‘gigante’, fechado na década de 90).
Infelizmente não achei nenhum trecho do filme, ou imagem para postar. Mas fica a dica.
Ed