TV Digital chega ainda com muitas incertezas

O novo sistema de TV digital brasileiro não terá impacto significativo na vida dos usuários a curto prazo.

A data marcada se aproxima: 2 de dezembro, próximo domingo, será o dia em que a TV brasileira oficialmente estreará seu sistema digital, com o sinal sendo disponibilizado na cidade de São Paulo. Uma data que pode ser comparada a 18 de setembro de 1950, dia em que a falecida TV Tupi iniciou suas transmissões, sendo a primeira emissora de TV da América Latina.

Ainda para poucos?

Pode ser que, no futuro, os textos históricos façam menção a esta data, mas, na prática, nada mudará no cotidiano da grande maioria da população, pelo menos a médio prazo. Curiosamente, algo parecido aconteceu no dia da inauguração da TV Tupi, há 57 anos: pouquíssimos aparelhos foram adquiridos por consumidores abonados, e o evento tornou-se algo compartilhado por uma parcela mínima da população. A televisão era algo para a elite, o que, obviamente, não acontece hoje em dia.

Mas será que não? Para ter acesso ao sistema digital, é necessário comprar um conversor, cujo preço mínimo de mercado está cotado por volta  de R$ 400. Não se registra, até o momento, grande oferta do produto no mercado – embora as TVs ditas “prontas para a TV digital” estejam entre os principais objetos de desejo deste Natal. Mesmo assim, estes aparelhos caros certamente estão sendo comprados, em sua grande maioria, por consumidores que não esperam usá-los para sintonizar o Jornal Nacional ou algum programa feminino da tarde em alta definição.

Inovação e interatividade 

A TV aberta digital, embora seja uma necessidade tecnológica e de mercado para o país, encerra uma série de contradições que precisam ser pensadas por profissionais de comunicação, publicidade e conteúdo. Do ponto de vista de audiência, certamente a digitalização do conteúdo da tevê aberta não fará os índices do IBOPE mudarem drasticamente.

Isso acontece porque o grande benefício da mudança, por enquanto, se limita à melhoria de imagem e de som – como a esmagadora maioria da população ainda não terá comprado equipamento necessário para vivenciar esta experiência, é fácil concluir que este apelo, por si só, não vai provocar mudanças significativas no perfil da audiência dos programas – e conseqüentemente, nos orçamentos de mídia das redes.

O público que teoricamente já estaria “pronto” para receber o sinal digital tem poder aquisitivo maior, e grande fatia deste setor já tem acesso a um “aperitivo” da experiência da TV digital, pois assinam os pacotes da TV a cabo, que oferecem formas de interação – embora ainda não em alta definição, o que vai ocorrer no ano que vem, com a adoção do padrão de HDTV por parte das operadoras de TV por assinatura.

O que leva a um outro ponto polêmico: a questão da interatividade. Muitas pessoas ainda imaginam que o novo sistema permitirá “comprar o brinco que a mocinha da novela das oito está usando a um toque no controle remoto”. Essa visão estereotipada da interação numa TV digital em pouco contribui para o desenvolvimento de um modelo de negócios factível. A interatividade pode permitir comprar o tal brinco, mas será necessário desenvolver um sistema que não prejudique a experiência do usuário. Ou será que interromper a programação para fazer uma compra, quando há outras pessoas na sala assistindo ao mesmo programa, será algo interessante?

O que será preciso acontecer – e muita gente já está fazendo, diga-se de passagem – é desenvolver aplicações que permitam esta interação da forma mais agradável possível. Mas isso levará tempo, o que deixa a data de dois de dezembro ainda mais fadada a ser um “símbolo” de uma mudança, não um divisor de águas na história da telecomunicação brasileira.

Gravar, pode?

Outro ponto que começa a ser discutido também é a questão das gravações dos programas digitais, cuja política será definida pelo governo. A questão do flag anti-gravação é simples: trata-se de uma restrição sobre o que se pode fazer com o sinal digital. Teoricamente, pode-se proibir que se faça gravações do conteúdo digital, o que, para os produtores de conteúdo significaria uma proteção bem vinda contra a pirataria. No entanto, há quem diga que esta proibição pode significar um retrocesso, já que restringir a gravação de programas poderia ferir os direitos do consumidor, que faz isso sem problemas com o sistema analógico, gravando seus VHS ou DVDs.

Esta questão precisa ser resolvida rapidamente, e já se imagina uma certa polêmica com relação à questão de gravação de conteúdos de direitos protegidos. A velha questão entre preservação de direitos autorais versus expectativa dos consumidores pode vivenciar um novo e interessante “round” nos próximos meses.

E a publicidade, afinal? 

As expectativas sobre o impacto da TV digital sobre a publicidade são grandes, mas é pouco provável que mudanças drásticas ocorram a médio prazo. Afinal, parece que a essência do negócio TV pouco irá mudar com a adoção do sistema digital – as redes de televisão certamente querem manter o controle para não perder receitas, além do tempo de maturação necessário para se criar um modelo de negócio específico para o sistema digital.

Enfim, há mais questões a esclarecer do que pontos a recomendar na adoção da TV digital no Brasil. Será necessária uma integração de interesses para que o modelo funcione da melhor maneira possível, mas será que as partes interessadas estão realmente dispostas a promover uma evolução no mercado? Uma integração entre televisão e telefone celular, por exemplo, será possível? Pois, sem o uso do telefone celular – uma facilidade acessada por mais de 110 milhões de brasileiros – qualquer inovação parece ser fadada a não surtir o efeito necessário.

As respostas, depois do intervalo comercial – ou não.

Via: JumpExec

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